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28 março 2018

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio da primavera


Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Hoje celebramos em Grande Loja um novo equinócio de Primavera. E tal como tenho vindo a instruir, também hoje vos relembro que o vocábulo “equinócio” forma-se a partir de duas palavras latinas: ‘aequus’ que significa ‘igual’ e ‘nox’ que significa noite. Estamos assim, de novo, numa data em que a inclinação da terra e os raios da luz do sol, afiançam idêntica duração dos dias e das noites. Mas num instante, este equilíbrio momentâneo e frágil, irá colapsar, porque iniciaremos hoje a caminhada do aumento dos dias, até que chegue o solstício de Verão!

Por esta razão meus irmãos, em todos os momentos devemos estar alerta para que o desequilíbrio e a desunião não irrompa entre nós, para que a juventude do vigor adolescente da Primavera, não inunde os nossos campos maçónicos apenas de ervas daninhas.

A este respeito, cito-vos um velho camponês mirandês, que todos os anos pelo tempo do equinócio primaveril previne os mais jovens com a sua anciã sabedoria: “por chegar la primavera, nun habemos deixar que todo se buolba an berde, porque todo l que deixarmos tresformar-se an berde, sobretodo las cousas i ls balores mais amportantes, puode siempre benir un burro qualquiera cheno de fame, i pensando que ye yerba: ruobe-los”.

E os maçons já sabem bem do assassinato de Hiram Abif perpetrado por três companheiros desonestos, ciosos de honrarias e poder fácil!

E também todos sabemos da velha máxima atribuída a Júlio César: “à mulher de César não basta ser, terá também que parecer”.

E no fim do século XVI, o maior dos dramaturgos, na sua peça “A tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca”, William Shakespeare, indaga: “To be or not to be, that is the question” "Ser ou não ser, eis a questão"!

Não podemos, portanto, ser maçons e ter comportamentos profanos. Por essa razão, este servo que vos fala, vos indaga amiúde com a seguinte afirmação: as “profanisses” são para os profanos! Nós somos uma ordem iniciática com regras bem definidas.

Fomos todos iniciados maçons, e como maçons nos devemos exclusivamente comportar durante todos os instantes, respeitando sempre a nossa Augusta Ordem, as suas regras e os seus valores.

Mas deixai-me recuar ainda mais atrás que William Shakespeare e que Júlio César, para viajar até ao tempo de Esopo, um escritor da antiga Grécia que viveu nos anos 600 antes de Cristo, para vos contar uma das suas fantásticas e didácticas fábulas, que tem como título:

 O pai e os filhos brigões!

“ Certo pai tinha uma família de muitos filhos, que viviam em permanente briga entre si. Já cansado de tentar pôr fim às disputas através de esforço pessoal e muitos conselhos, decidiu mostrar através de um exemplo simples e prático, todos os males que podia acarretar tanta briga e desunião.

Para isso, um dia, pediu aos filhos que fossem à floresta mais próxima e juntassem um feixe de pequenos ramos de árvore. Aportado o dito molho de ramos, colocou-o nas mãos de cada um dos filhos, ordenando-lhe à vez, que cada um deles tentasse quebrar o feixe pelo meio.

Cada um dos filhos, valendo-se de todas as suas forças, bem tentou executar o que o pai lhe ordenou, mas nenhum deles obteve êxito, tendo todos fracassado.

Em seguida, o pai separou do feixe vários dos finos ramos que o compunham, colocando um nas mãos de cada filho, ordenando-lhe para que o tentassem quebrar pelo meio. Os rapazes, um após outro, obedecendo ao pai, mostraram todos como era fácil quebrar o ramo pelo meio.

Perante a evidência, disse aos seus descendentes:

Vede bem meus filhos, se permanecerdes sempre unidos como o feixe destes ramos, ninguém vos poderá quebrar pelo meio, mas se brigarem constantemente e vos mantiverdes desunidos, qualquer um vos poderá aniquilar. Em vez de brigar, ajudai-vos mutuamente uns aos outros meus filhos: contra as dissidências da vida e contra todos os que vos tentarem quebrar. Desunidos, seremos frágeis, unidos seremos fortes e inquebráveis.”

Da mesma forma meus irmãos, se dentro da nossa Augusta Ordem nos mantivermos unidos e coesos, ajudando-nos mutuamente, seremos fortes e robustos, mas se privilegiarmos a intriga e a desunião: seremos apenas frágil sombra de nós mesmos. E nós já falamos aqui tantas vezes do segredo da ‘meligrana’!

Entre este equinócio de Primavera e o próximo solstício de Verão, decorrerão eleições dentro da nossa Augusta Ordem. Apelo a todos os irmãos para que o processo de apresentação de candidaturas decorra com a devida calma e elevação maçónica.

Recordo que em maçonaria não podem existir “campanhas eleitorais”, tal como as que conhecemos dentro do sistema político partidário. Entre nós deve haver: contenção, informação aos irmãos, respeito pelos valores maçónicos, cortesia, educação, e os diferentes opositores, não são adversários entre si, mas apenas irmãos. Existe um ditado popular que diz: “pela aragem, se sabe o que vai na carruagem”. Por isso, na parte que me toca, tudo fazei para haja transparência e para que todos os requisitos e normativas vigentes, sejam estritamente observados e cumpridos. E são estas as garantias que tendes deste vosso servo, para engrandecimento da Nossa Augusta Ordem, e para que neste processo electivo, a aragem da nossa carruagem seja sã, livre e cordial!

Meus irmãos: armai-vos das vossas espadas: não podemos tolerar “maçons profanos” dentro do Templo, cultivando a intriga e a desunião entre nós, desejando apenas o nosso fenecimento e a morte dos valores universais da Maçonaria.

E era esta a mensagem simples que neste equinócio queria partilhar convosco, através da força da palavra e dos valores, e deles imbuídos, continuaremos o nosso caminho unidos e fortes, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Lisboa 24 de Março de 6018 (2018)

Júlio Meirinhos
Grão-Mestre

01 janeiro 2018

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do solstício de inverno


Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos Irmãos, à nossa casa.

Celebramos hoje em Grande Loja o solstício de Inverno. A palavra solstício vem do latim "sol" e “sistere” – do que não se move. Este fenómeno astronómico, é o momento em que o Sol, durante o seu movimento aparente na esfera celeste, nos traz o registo do dia mais curto e da noite mais longa do ano. Nesse instante, o grande astro rei, ameaça abandonar-nos, arremessa-nos com a frieza da noite eterna, mas trata-se apenas de um prelúdio de generosidade, porque no instante seguinte nos presenteia com a esperança, e as noites começarão a encurtar e os dias começarão a crescer, e a grande vitória da luz sobre a escuridão concretizará a renovação da aliança de vida que o Sol tem para com toda a criação terrestre.

E é desta forma que o Sol nos ensina que nada é eternos meus Irmãos, que tudo é relativo, que tudo é permanente mudança e renovação, que tudo é metamorfose: porque à escuridão das noites longas, sucederá a luzência dos dias felizes, e ao solstício de Inverno, sucederá o solstício de Verão, e que os equinócios hão-de acontecer de permeio, e se morarmos felizes em cada um desses momentos, a nossa vida será uma verdadeira bem-aventurança.

E da ancestral loucura Babilónica de chegar aos céus, nasceu a riqueza das línguas, e por entre os meandros da dissonância do desentendimento dos homens, a velha civilização egípcia criou os hieróglifos e os sumérios o alfabeto, para que os clássicos gregos puderam escrever uma incipiente democracia primordial, ou talvez, quem sabe, para que Camões e Pessoa extravasassem a poesia.

Os romanos geraram cidades abastecidas por água que os magnificentes aquedutos traziam de longe. E pelo tempo em que quis nascer Portugal, os grandes mestres medievais, inventaram catedrais de uma formosura quase perfeita, mas a beleza da nova dimensão da perspectiva renascentista sobrepôs-se-lhe.

E foi então que nós portugueses, de sextante em punho, oferecemos a descoberta dos vários continentes a toda a humanidade.

E durante tão longa caminhada, travaram-se muitas guerras, muito sangue e destruição se arramou à superfície da terra, e a cada vez, das cinzas da dor absoluta, tudo voltou a reflorescer.

E a maçonaria especulativa há já trezentos anos que aprofunda a bondade do polimento da conduta humana, praticando a liberdade, a igualdade e a fraternidade, erguendo todos os dias novos pináculos à nossa catedral interior.

E eu, e os mais velhos que eu, ainda pensamos que a noite fascista nos tolheria os passos e os sentidos, mas erguemo-nos e revigoramos de forças, e ainda fomos capazes de responder à resolução de grandes causas nacionais, como o foram a liberdade, a democracia, a descolonização, a Europa e o desenvolvimento.

E um de entre os nossos foi prémio Nobel da literatura, e outro Presidente da Comissão Europeia, e outro Secretário-geral da ONU. Ganhamos o campeonato europeu de futebol e o melhor futebolista do mundo é nosso, com a proeza renovada por cinco edições. E o festival da eurovisão ganhou-o Salvador Sobral para todos nós, obrigando o seu tão frágil coração a amar por dois! E nós possuídos pela desventura do nosso fado património da humanidade, tínhamos a alma lusa acorrentada, quase condenados a pensar que tudo isto era apenas para os outros, e que, portanto, nos estaria eternamente vedado! E nos augúrios deste mês natalício, já conseguimos mais facilmente acreditar que o Presidente do Eurogrupo podia ser um economista nado nos Algarves.

E o Natal é isto, meus Irmãos: termos a capacidade de acreditar que todos os dias pode nascer a bondade, a alegria, a transcendência de nós mesmos. E muitos natais ainda podemos fazer acontecer: se amarmos, se trabalharmos, se estudarmos, se investigarmos, se formos justos, se praticarmos o bem, se praticarmos a virtude, se formos mansos, se todos os dias a liberdade for o único norte que oriente a construção das nossas novas pontes, que seja apenas ela a dirigir os nossos novos passos, livres.

“Não se pode amar sozinho, e todos os dias voltaremos a aprender”, explicando ao mundo que fomos os primeiros a abolir a pena de morte, apostando no lado manso da humanidade: porque “bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.”

Jesus Cristo, além do elogio da humildade, nesta Bem-Aventurança, ensina-nos que a terra não será propriedade nem dos valentes, nem dos arrogantes, nem daqueles que apenas querem guerrear. Ninguém estará por cima, ninguém estará por baixo, ninguém será usurpador, porque esses, apenas os destroços herdarão. De que nos adianta os grandes domínios, se eles forem construídos sobre a destruição e a desventura? Jesus poderia arrogar-se o maior dos anjos. Poderia humilhar opositores e delatores, mas a sua vitória significou apenas abrir caminhos, semear paz e harmonia. Fazer coisas extraordinárias, também implica a condição de mansidão, porque assim conquistaremos mais corações que todos os grandes valentes como Nero, Alexandre, Hitler ou Stalin. Os mansos não sentem necessidade de provar coisa alguma, nem mesmo que são mansos.

E neste solstício de Inverno, o Sol quer ainda ensinar-nos que há sempre mais que os dois clássicos lados: o da noite e o do dia. Porque a alvorada, o crepúsculo, a vespertina madrugada, o calmo entardecer ou o cálido zénite, fazem parte das belezas e sensações que Deus nos quis oferecer, apenas para que experienciássemos cada um de todos os pontos inscritos sobre a perfeita circunferência, toda e cada uma das nuances da felicidade.

E neste tempo solsticial e natalício, havemos de cultivar a bondade e a compaixão, e limparemos o caminho que nos traz as harmonias, a paz, a justiça, a liberdade, para que possa ser tempo de Natal todos os dias, todos os anos, por todos os séculos dos séculos.

Boas festas, um feliz Natal e um Ano Novo cheio de saúde para todos os meus Irmãos e família.

E era esta a mensagem simples que neste solstício vos queria declarar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

23 outubro 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio de outono


O ABANDONO DO INTERIOR, O ABANDONO DE PORTUGAL

Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo, sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Celebramos hoje em Grande Loja o Equinócio de Outono. O fenómeno astronómico ligado ao equinócio, define o instante em que o Sol, na sua órbita aparente, cruza o equador celeste, garantindo nesta data, igual duração entre os dias e as noites. Através desta sugestão igualitária cósmica, reavivo os princípios que norteiam a nossa Augusta Ordem: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A partir deles extrapolo deveres para o maçon como o dever de solidariedade, o dever da promoção da igualdade de oportunidades, o dever da compaixão fraternal para com o semelhante, o dever de respeito pela dignidade humana, o dever em defender a democracia plena.

E faço esta introdução, porque queria hoje falar-vos do problema maior de Portugal, ao qual nós todos temos obrigação de prestar socorro:

O ABANDONO DO INTERIOR, O ABANDONO DE PORTUGAL,

problema que tem matado e vai continuar a matar.

O fenómeno dantesco dos fogos deste Verão, que assolaram e exauriram o país, que espalharam terror e morte, deve servir de rastilho para que expluda em Portugal uma “bomba nuclear de mudanças radicais”.

Neste fantástico rectângulo português, as assimetrias territoriais de longitude são cada vez mais colossais e gritantes: ao longo do Atlântico afunda-se uma espécie de restinga litoral que soma à volta de 10% do território, 90% da população, que concentra as actividades económicas, a riqueza e os maiores rendimentos, o desenvolvimento, demografia jovem e vigorosa, a qualidade de vida e as acessibilidades.

Nas costas deste litoral que nunca aparecem ao espelho, temos 90% do território que arde todos os anos: 10% da população, todas as desgraças e calamidades, das quais os fogos de Verão, são apenas um povoador de consequência.

E cito o artigo do “Financial Times” que afirma com clarividência: “os incêndios, que devastam Portugal, reflectem décadas de negligência e afastamento do poder político em relação às regiões do interior”.

E eu sei bem do que falo, porque durante muitos anos, fui autarca nas profundezas do interior dos interiores, por isso vos parafraseio Marcelo Rebelo de Sousa, que numa passagem pelo nordeste transmontano, ao improvisar uma aula de geografia para localizar Trás-os-Montes enfatiza: "O nosso país, está dividido entre a Área Metropolitana de Lisboa e o resto. Depois, entre as outras áreas metropolitanas e o resto. Depois, entre todo o litoral e o resto. Depois, há dentro do interior o interior intermédio e o interior profundo. Dentro do interior profundo há o interior mais profundo. E é no interior mais profundo do interior profundo que encontramos Trás-os-Montes", e eu próprio acrescentaria que Miranda do Douro fica mesmo no confim das profundezas de Trás-os-Montes. E é este um problema que deixamos arrastar desde muito longe. Exceptuando Dom Sancho I o Povoador, segundo rei de Portugal, que no último quartel do século XII promoveu e apadrinhou o povoamento dos territórios do país, tal como a fundação da cidade da Guarda, e a atribuição de várias cartas de foral nas Beiras e em Trás-os-Montes, povoando assim áreas remotas do reino, com imigrantes da Flandres e da Borgonha. E a Lei das Sesmarias promulgada na segunda metade do século XIV por Dom Fernando I, que pretendia fixar os trabalhadores rurais às terras e assim diminuir o despovoamento. Além deste dois, talvez não veja outros estadistas que mereçam relevo à altura nesta causa da democracia territorial Portuguesa. No século XIX, eventualmente Dom Pedro IV, mas o interior que escolheu foi o Império do Brasil.

Depois da lei das Sesmarias, as sucessivas estratégias territoriais passaram sempre por extorquir recursos e população ao interior: foram essas gentes que encheram as naus e as galeras dos descobrimentos, que foram levadas para povoar as ilhas até então desertas, as feitorias na Índia, as colónias africanas, o Brasil.

Foram eles os incentivados a imigrar para a Argentina, para a Venezuela, ou América do Norte.

Foram eles que ajudaram vários países europeus a levantarem-se depois da Primeira e Segunda Grandes Guerras, tal como a França, a Alemanha, a Inglaterra, a Bélgica, a Suíça ou a Espanha. Foi a eles que deslocalizamos para que enchessem Lisboa e o Porto.

Recentemente são os escassos jovens licenciados provenientes das regiões do interior os primeiros a engrossar as fileiras da imigração mestrada e doutorada: eu tenho lá uma filha querida!

Muitos dirão que esta é tarefa hercúlea, titânica: impossível!

Eu respondo com o exemplo recente das Alemanhas, que em 1990 tomaram a decisão de se reunificar.

Estamos a falar de coisas diferentes, claro que estamos, mas a verdade é que precisamos agora de uma grande mobilização nacional para esta urgência. Durante os anos de democracia, Portugal já conseguiu responder à resolução de grandes causas nacionais, como o foram a liberdade, a democracia, a descolonização, a Europa e o desenvolvimento. Precisamos agora reunificar o país.

A Unidade de Missão para a Valorização do Interior, aposta do actual Governo, foi o último redundante fracasso absoluto, e agora as contabilidades eleitoralistas, ou as palavras e os afectos já não bastam.

Este vosso servo Grão-Mestre não manda, mas tem com ele O PODER DA PALAVRA. E já vos tinha contado, quanto tudo era apenas trevas e breu, Deus fez luz e criou o universo apenas com palavras: DIZENDO-O. E é apenas através de palavras justas, que hoje vos queria aqui convocar a todos, a fim que sejais apóstolos e cimento forte neste tão nobre desígnio, porque a cada dia o mundo tem que ser melhor e Portugal tem de sê-lo de sobremaneira. E cito o grande poeta do interior, Miguel Torga «O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista… mas não somos um povo morto, nem sequer esgotado.»

Há cerca de um mês em Vilar Formoso, o Presidente da República, defendeu que a fronteira de Portugal com Espanha, fosse toda ela declarada Património da Humanidade pela UNESCO. Trata-se da mais antiga fronteira da Europa, uma fronteira onde muitas guerras se travaram, mas sobretudo uma fronteira onde os vizinhos dos dois lados nunca deixaram de relacionar-se cordialmente, mas sobretudo entreajudar-se em tempos de desgraça, porque os governos dos dois lados já os tinham abandonado: essa é uma verdadeira mensagem universal para toda a Humanidade, e talvez seja por aí que devamos começar.

E para bom entendedor, meia palavra deve bastar, por isso nada mais acrescento, pois esta era a mensagem simples que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal dos valores maçónicos, a liberdade em Portugal, na Europa, no mundo, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão-Mestre

17 julho 2017

As Lojas e a Grande Loja: conceção simbiótica


Expus em dois dos últimos textos as conceções polarizadas que podem existir nas relações entre as Lojas maçónicas e a respetiva Grande Loja ou respetivo Grande Oriente, essencialmente a que dá prevalência àquelas sobre esta ou este e a que assenta no pressuposto precisamente contrário. Efetuei, ainda que brevemente, a crítica de uma e outra posições. É agora tempo de indicar a conceção que tenho por correta e que acho que deve enformar o relacionamento entre as Lojas e a sua estrutura agregadora. 

Conforme, em comentário a um dos textos, numa rede social, muito lucidamente escreveu Carlos D., um maçom que muito prezo e cujos escritos leio sempre muito atentamente, "efectivamente, a Loja constitui a base estrutural da Maçonaria" e, quer nas Grandes Lojas, quer nos Grandes Orientes, "ressalta a convicção da soberania das lojas, cabendo às "grandes" instâncias o exercício executivo dessa soberania colectiva". Efetuo estas citações porque resumem certeiramente os campos de atuação das Lojas  e das respetivas estruturas agregadoras.

Com efeito, para o trabalho do maçom, para se ser maçom, a Loja é indispensável. É na Loja, com a Loja e pela Loja que o maçom se faz, cresce e evolui. Portanto, naturalmente que a Loja é o polo essencial em tudo o que respeita à integração, formação e acompanhamento dos seus obreiros. E, assim sendo, é a Loja soberana quanto à forma como funciona, como organiza o seu trabalho e o trabalho dos seus obreiros. Enfim, o paradigma da muito batida frase que postula integrar o conceito de Maçonaria o princípio maçom livre numa Loja livre.

Mas, se no plano interno, o trabalho da Loja é soberanamente definido por esta, no plano externo, no relacionamento da Loja com outras Lojas, no relacionamento da Loja com obreiros de outras Lojas, nos contactos nacionais e internacionais, mas também na preservação comum dos princípios e boas práticas maçónicas e na organização da utilização dos espaços utilizados pelas várias Lojas, é indispensável a articulação efetuada pela estrutura agregadora. Neste plano, a primazia, digamos assim, deve ser dada às orientações e decisões tomadas a nível de Grande Loja ou Grande Oriente, não sendo admissíveis, por dificilmente acomodáveis, derivas estabelecidas a seu bel-prazer por uma (ou mais) Lojas. Isto é evidente quanto à gestão da utilização dos espaços, mas também na preservação do correto cumprimento das normas e comportamentos assumidos internacionalmente. E obviamente que o relacionamento entre Lojas e entre uma Loja e obreiro de outra deve seguir normas e padrões estabelecidos pela estrutura agregadora, por clara necessidade de prevenção de conflitos.

Estes dois planos - relação da Loja com os seus obreiros, gerida pela Loja, e relação da Loja com outras Lojas e obreiros delas e utilização de espaços, gerida pela estrutura agregadora - complementam-se e devem ser geridos por ambos os níveis das estruturas com respeito e aceitação das respetivas competências. São ambos indisopensáveis. São ambos harmonizáveis e devem ser sempre mantidos harmonizados.

A Loja maçónica existe por e para os seus obreiros. A Grande Loja ou Grande Oriente existe por e para as suas Lojas. A compreensão destes simples factos habilita a entender que a relação entre ambos os níveis de estrutura é simbiótica. Cada nível necessita do outro e deve, portanto, respeitar as competências desse outro nível.

As Grandes Lojas ou Grandes Orientes necessitam das suas Lojas para fazerem sentido. As Lojas agregam-se em Grandes Lojas ou Grandes Orientes porque necessitam de assim fazer para eficazmente poderem funcionar. Não tem, assim, lógica pretender-se estabelecer hierarquias de importância entre ambos os níveis. Ambos são igualmente indispensáveis. Cada um deles necessita do outro. Cada um deles tem tarefas importantes  a assegurar, para bem cumprir o seu papel. Em suma, são verdadeiramente simbióticos.

Não vale, pois, a pena complicar o que é simples, evidente e claro. Não se trata de quintas ou quintinhas de poder. Trata-se de estruturas, em diferentes níveis, de serviço. Se assim se entender, não faz então sentido a determinação de "quem é mais importante". Ambos os níveis são importantes, indispensáveis e nenhum funciona capazmente sem o outro. Isso é que interessa. O resto... são profanidades!

Rui Bandeira

10 julho 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do solstício de verão


O mundo comemora III séculos de Maçonaria Moderna

Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Hoje celebramos em Grande Loja o Solstício de Verão. O vocábulo solstício vem da palavra latina “SOL” a que se justapôs a palavra “SISTERE”, que significa não se mexer, designando o momento em que o sol, durante o seu movimento aparente inscrito na esfera celeste, atinge a sua maior declinação em latitude.

Um dia de solstício será eternamente uma grande e mágica aurora: límpida; resplandecente. No solstício de Verão, o dia mais longo do ano, a luz do sol triunfa sobre a escuridão da noite, e oferece-nos a luminosidade plena. E estamos aqui para mais uma vez velarmos meus irmãos. Velarmos juntos a luz absoluta dos ancestrais valores maçónicos, fazendo-a triunfar sobre os medos, sobre as trevas e os obscurantismos, sobre todos os totalitarismos.

Neste preciso dia 24 de Junho de 2017, dia de São João Batista, a maçonaria moderna e especulativa, celebra o seu terceiro centenário. A maçonaria mundial completa assim 300 anos, desde que se atreveu a sonhar e lutar por um ideal de Humanidade, suportado por princípios simples, mas fundadores: o direito de pensar e o dever de tolerar. Universalizando-se a partir de então, a Maçonaria Regular afirma-se através da sua dupla dimensão, humanista e espiritual: por um lado, defendendo uma visão do homem baseada na liberdade de consciência, do intelecto e da igualdade de direitos, e por outro, defendendo um deísmo que reconhece a existência de Deus, mas que deixa aberta a definição da sua identidade.

E foi nessa noite de 24 de Junho de 1717, no terceiro ano do Rei George I, que em Londres na Inglaterra, se realizou a primeira Assembleia de Maçons Livres e Aceites, tendo lugar a reunião no primeiro andar da taberna “Goose and gridiron” (Ganso e grelha). Foi essa também uma noite de aurora primordial para a maçonaria, parafraseando Sophia de Mello Breyner sobre outras livres madrugadas, “O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo”. Foi nessa noite de 24 de Junho de 1717, que quatro lojas inglesas fundaram a primeira Grande Loja Inglesa e elegeram o primeiro Mui Respeitável Grão Mestre da Maçonaria Moderna, Anthony Sayer, encarnando a sua função o Centro da União e da Harmonia Maçónica.

E trezentos anos depois, em pleno terceiro milénio, são ainda muito grandes as resistências a estes ideais de liberdade, simples e fundadores. Por isso estamos aqui todos juntos para velar, o que significa acreditar e defender sempre os princípios maçónicos da liberdade, preferindo ter a garganta cortada a renunciar a eles.

E temos que estar permanentemente em guarda meus irmãos, porque ainda hoje o planeta vive momentos de muitas incertezas na defesa dos valores maçónicos. A grande e nobre Inglaterra que há trezentos anos nos presenteou com a primeira Grande Loja Maçónica, o país que forjou uma das mais densas democracias do mundo, parece ter-se agora cansado da História e envia-nos sinais que vão no sentido de querer ficar fora dela, deixando o “Brexit” criar desunião, arrancando à Europa a democracia mais forte, e apoucando-se assim como nação.

Por outro lado, nos Estados Unidos da América, o seu presidente democraticamente eleito, alheia-se dos verdadeiros males do mundo e em jeito de avestruz, volta as costas ao tratado de Paris e à sustentabilidade ambiental do mundo: temos de estar bem conscientes que apenas temos este planeta, que na sua versão primeira não foi programado para ter segundas oportunidades. Mas mesmo assim acreditemos que a América é maior que o seu presidente, e a Inglaterra maior que o “Brexit”.

E avisa-nos um dos maiores pensadores do nosso tempo, George Steiner: “O nacionalismo é um veneno absoluto e encarna o maior veneno do nosso tempo”.

E sobre o mesmo assunto, nos alvores na Primeira Guerra Mundial, alertava já o grande estadista francês Georges Clémenceau: “Podemos ser patriotas, mas não chauvinistas. E é esta uma distinção muito importante, porque o patriotismo pode ser decente, mas o chauvinismo, o nacionalismo e o totalitarismo, são realidades que vão sempre fazer viver à humanidade tempos muito amargos e degradantes, em que a morte e o medo espreitarão em cada esquina”.

O domínio da retórica é uma das grandes artes maçónicas, mas cuidado com a retórica política malvada, porque pode matar e assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica e na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras dos totalitarismos, que funcionam através da linguagem: sempre em guarda meus irmãos.

O que caracteriza o mundo actual é o alcance, a amplitude e a rapidez das mudanças. E a sua cadência todos os dias se acelera. Agora já com algum recuo, começamos a perceber que a mundialização indubitavelmente beneficia a humanidade. Nunca a pobreza no mundo recuou tanto e tão depressa e nunca os valores maçónicos estiveram tão difundidos e universalizados. Ainda assim, numa boa parte da população dos países ocidentais, a mundialização está a provocar um grande stress cultural e económico, que veio criar muitos ressentimentos e muitos medos. E a melhor coisa para resolvermos os problemas, não é enfiarmos a cabeça na areia, a melhor coisa é ter consciências dos problemas e resolve-los dentro do respeito dos valores maçónicos, sem nunca cedermos à facilidade aparente e venenosa dos totalitarismos. E é por isso, que igual que da primeira vez há trezentos na “Taberna Ganso e Grelha” devemos continuar eternamente a juntarmo-nos em Grande Loja, para velar em uníssono meus irmãos: para nos fortalecermos na defesa dos valores maçónicos e da liberdade, porque tudo o demais é pura vanidade.

E trezentos anos depois, neste tempo de solstício, a União da grande família dos maçons regulares, é de rigor: façamos o mundo mais feliz, e por contágio, sejamos todos mais felizes.

E era esta a mensagem simples que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal dos valores maçónicos, a liberdade em Portugal, na Europa, no mundo, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

Nota: O MRGM Júlio Meirinhos escreve segundo as regras de orografia pré-Acordo Ortográfico de 1990.

Rui Bandeira

26 junho 2017

As Lojas e a Grande Loja: conceção centralista - e sua crítica


A Maçonaria só se estabeleceu, expandiu e evoluiu a partir da criação de Grandes Lojas. O relacionamento internacional faz-se entre Grandes Lojas e ou Grandes Orientes, não diretamente entre Lojas. A estrutura logística de funcionamento e de reunião é assegurada pelas Grandes Lojas e são estas quem efetua a coordenação da utilização dessas estruturas pelas várias Lojas. São as Grandes Lojas que assumem a preservação da cadeia iniciática, a manutenção dos princípios fundamentais e a disciplina de comportamento de Lojas e obreiros. A unidade das práticas rituais necessita de coordenação e prevenção de desvios e alterações que só pelas Grandes Lojas ou Grandes Orientes pode ser assegurada.

Estas e outras afirmações - no essencial corretas, acentue-se - fundamentam a conceção centralizadora do relacionamento entre a Grande Loja, ou Grande Oriente, e as Lojas da sua jurisdição. Para esta conceção, as Lojas transferiram para a sua estrutira superior um conjnto de competências que originam também a transferência de uma gama de poderes que se consolidaram na esfera da Grande Loja ou do Grande Oriente e do Grão-Mestre, poderes estes que assumem natureza imperativa sobre as Lojas e os obreiros da respetiva jurisdição.

Com isso, o centro nevrálgico da organização maçónica transferiu-se da Loja para a Grande Loja ou Grande Oriente. As necessidades de coordenação, de prevenção de desvios, de disciplina e de organização impõem que a autoridade, o poder decisório essencial, se fixe na Grande Loja ou Grande Oriente e no seu Grão-Mestre, restando para as Lojas apenas poderes residuais e, mesmo assim, sob tutela da Grande Loja e do Grão-Mestre.

Esta conceção centralizadora do relacionamento entre a Grande Loja e as Lojas é errada, desde logo porque apenas burocrática, não atendendo à específica natureza da Maçonaria.

A Maçonaria é essencialmente voluntária. O maçom aceita cumprir determinadas regras, assegurar obrigações, cumprir a disciplina que lhe é indicada. Mas a ligação essencial do maçom não é com a Grande Loja ou com o Grão-Mestre. A ligação essencial do maçom é com os seus pares da sua Loja.  A ligação que se estabelece é uma ligação iniciática - e esta ocorre e alimenta-se entre o indivíduo e o grupo próximo onde se insere. A estrutura superior é alheia à mesma. O maçom faz-se maçom em Loja, forma-se maçom em Loja, cresce maçom em Loja, E, feito maçom, formado ou em formação, crescido ou em crescimento, vai à Grande Loja... Ou não... 

O trabalho da Loja relativamente aos seus obreiros e com os seus obreiros é insubstituível. A Loja não é uma mera correia de transmissão entre a Grande Loja ou o Grande Oriente e o obreiro. Nem sequer nada que se pareça a tal. Pelo contrário, a Loja é uma estrutura central e indispensável para o trabalho maçónico dos seus obreiros.

A Grande Loja pode e deve coordenar Lojas. Pode, mesmo, designadamente em assuntos administrativos, enquadrar o registo dos obreiros das Lojas e determinar procedimentos. Mas o relacionamento direto, pessoal, exclusivo e insubstituível entre o obreiro e a sua Loja ultrapassa e é completamente alheio à estrutura de enquadramento das Lojas.

Pode-se porventura objetar que não é bem ou não é absolutamente assim. Por exemplo, o Grão-Mestre tem tradicionalmente o poder de fazer maçom à vista e de dispensar prazos ou condições para aumentar o salário de maçom. É certo que sim. Mas não se esqueça nunca que ninguém é maçom, é-se reconhecido maçom! Reconhecido pelos seus Irmãos. Bem pode qualquer Grão-Mestre declarar que um qualquer elemento é maçom, no uso da sua prerrogativa para tal. Se nenhum outro maçom reconhecer o dito elemento como tal...ele não vai longe na sua vida maçónica. Com ou sem intervenção do Grão-Mestre...

Maçonaria não é profanidade e não se rege nem replica os princípios, regras, costumes e hábitos profanos. Desengane-se quem crer o contrário. Maçonaria pressupõe um laço, uma transmissão, um caminho feito de braço e abraço conjunto, que ultrapassa - e muito! - qualquer determinação regulamentar, qualquer norma, qualquer manifestação de poder.

A conceção centralista da Grande Loja pode porventura traduzir-se em regulamentos, em práticas, quiçá em profanidades. Mas, no que importa, na iniciática transfortmação do íntimo de cada um, não há decisões, nem regras, nem ordens vindas de cima. Aí, no que verdadeiramente importa, no que constitui ser maçom, ser reconhecido maçom e fazer realmente maçonaria, só dois planos importamn e estão presentes: a relação do maçom consigo próprio e a relação do maçom com o(s) seu(s) Mestre(s). E esse(s) inevitavelmente é (são) Mestre(s) na e da sua Loja!

Rui Bandeira

12 junho 2017

As Lojas e a Grande Loja: conceção basista - e sua crítica


Em 24 de junho de 1717, quatro Lojas maçónicas londrinas reunidas na taberna Goose and Gridiron decidiram associar-se numa Grande Loja e eleger um Grão-Mestre que a todos os seus obreiros representasse. Foi assim que, em síntese, James Anderson registou o nascimento da primeira Grande Loja macónica, hoje normalmente designada por Premier Grand Lodge. Este é o facto que se convencionou constituir o nascimento da Maçonaria Especulativa.

Foram quatro Lojas que se associaram e decidiram constituir uma Grande Loja. Foram essas quatro Lojas e os seus respetivos obreiros que decidiram eleger um Grão-Mestre. São as Lojas que dão origem às Grandes Lojas. São os maçons que escolhem o Grão-Mestre. Esta inegável verificação constitui a base fundamentadora da conceção basista do relacionamento entre as Lojas e as respetivas estruturas agregadoras (Grandes Lojas ou Grandes Orientes).

Para esta conceção basista, a origem do poder está nas Lojas e nos respetivos obreiros, tanto assim que são as Lojas quem cria as Grandes Lojas e os obreiros quem elege o Grão-Mestre, diretamente ou por representação das respetivas Lojas, consoante os sistemas de eleição do Grão-Mestre em vigor em cada Obediência maçónica. Em consequência, a Grande Loja só exerce as competências que lhe são delegadas pelas Lojas e o Grão-Mestre exerce apenas o poder que lhe é delegado pelos seus eleitores. O essencial da Maçonaria está nas Lojas. As Grandes Lojas são meras estruturas administrativas e de coordenação. Mas a prevalência está nas Lojas. Estas é que mandam na Grande Loja. Não o inverso.

Sendo histórica e iniciaticamente correto afirmar-se que são as Lojas que originam a Grande Loja e não o inverso, sendo inquestionável que a legitimidade dos Grão-Mestres assenta na sua eleição pelos Mestres de toda a Obediência, no entanto a adoção pura e dura desta conceção basista da subordinação das Grandes Lojas às Lojas não é razoável e conduz a resultados perversos. Como em tudo na vida, a absolutização desta conceção é perniciosa e - goste-se ou não - não espelha a realidade. Não se trata de conflito entre o que deve ser e o que é. Trata-se do respeito da natureza, do lugar e das tarefas que devem ser assumidas por uma e outra estruturas. 

Absolutizar a conceção basistas do relacionamento entre as Lojas e a Grande Loja conduz, por exemplo, à aceitação, quiçá promoção, da existência de Lojas selvagens. Se a legitimidade reside absolutamente na Loja, então esta pode, a todo o tempo, decidir desligar-se da Grande Loja e atuar por si só, em absoluta independência. No entanto, sabemos que - particularmente na Maçonaria regular - tal não é, hoje em dia, considerado aceitável.

Ao constituir uma Grande Loja, ao integrar uma Grande Loja ou ao criar-se no âmbito de uma Grande Loja, a Loja maçónica procede à tal delegação de competências suas na Grande Loja, mas simultaneamente renuncia ao direito de retirar as competências delegadas. As competências essenciais de regulação, de coordenação, de representação, de ordenação, que as Lojas delegam na respetiva Grande Loja ou no respetivo Grande Oriente, uma vez atribuídas não são retiráveis. 

Com a constituição de uma Grande Loja fez-se nascer uma nova entidade. Entidade detentora de direitos, obrigações, atribuições e competências que, uma vez originariamente nela objeto de delegação, quem assim delegou não tem já o direito de retirar.

Pelo facto de a Loja constituir, aderir ou criar-se no âmbito de uma Grande Loja, automaticamente renunciou à absolutização do seu poder, pois decidiu partilhá-lo com a estrutura que criou, a que aderiu ou em cujo âmbito se criou.

Assim, reconhecendo-se a natureza originária do poder residindo nas Lojas, não é, porém, correta a conceção basista do relacionamento entre as Lojas e a respetiva Grande Loja ou o respetivo Grande Oriente. A natureza da criação, existência e relacionamento de ambas as estruturas irrecusavelmente fez nascer uma mútua obrigação inderrogável de partilha de atribuições e competências. 

Na definição, fixação e medida dessa partilha é obviamente importante o reconhecimento de que a origem está na Loja, que a legitimidade assenta na escolha dos obreiros. Mas tal reconhecimento não admite a absolutização ou, sequer, uma insensata prevalência de um basismo, que seria inconsequente, inoportuno e, afinal, contrário aos interesses das Lojas e dos respetivos obreiros.

A pura e dura conceção basista do relacionamento das Lojas e da Grande Loja não é, assim, o entendimento acertado. No próximo texto, procurarei expor - e igualmente criticar - a conceção inversa.

Rui Bandeira 

27 março 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio da primavera


Queridos Irmãos em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa. 

Hoje celebramos em Grande Loja o equinócio de Primavera. O vocábulo “equinócio” forma-se a partir de duas palavras latinas: ‘aequus’ que significa ‘igual’ e ‘nox’ que significa noite. Estamos, portanto, numa data, em que a inclinação da terra e os raios da luz do sol, garantem igual duração dos dias e das noites. 

Igual e permanente durabilidade também deve ter para o maçom, o brilho dos vértices do triângulo rectângulo em que assentam os princípios que sempre nortearam a nossa Augusta Ordem: Liberdade, Igualde, Fraternidade: liberdade de consciência e liberdade de pensamento, que permitam a todo o ser humano a aventura de conhecer-se e construir-se; a tolerância e a compaixão fraternal para com o semelhante, o respeito pela dignidade humana sem olhar a credos, classes sociais, raças, género, orientação sexual ou outro tipo de ideias ou ideais. 

Em 2017 a maçonaria moderna celebrará o seu terceiro centenário: a Maçonaria mundial completa 300 anos desde que se atreveu a sonhar e lutar por um ideal de Humanidade, suportado por princípios simples, mas fundadores: o direito de pensar e o dever de tolerar. 

Lamentavelmente, neste início conturbado de terceiro milénio, o mundo e a humanidade ainda está muito longe de ser um lugar que aceite e pratique pacificamente estes ideais simples e fundadores, perpetrando-se ainda muitas formas de obscurantismo: fundamentalismos religiosos, totalitarismos políticos, pensamentos únicos e outras ameaças. 

O velho mundo Europeu e o novo mundo Americano, criadores e resguardos da democracia e dos valores: por vezes cambaleiam, vacilam, duvidam do caminho! Nós maçons, nunca podemos cambalear, vacilar, duvidar: os valores são as nossas únicas grandes luzes, que permanentemente devem aclarar o nosso caminho. 

A este propósito, no dia 27 de Fevereiro último, pela primeira vez na história, um Presidente francês, neste caso François Hollande, visitou o Museu da Franco-Maçonaria em Paris. O objectivo foi simples e claro: reconhecer e enaltecer a contribuição positiva e fundamental que teve a Maçonaria francesa para a história da França, para a história dos países latinos e de maneira universal para a história da Europa, do mundo livre, democrático e progressista.

No seu discurso, François Hollande referiu-se à Maçonaria como grande impulsora do fim do colonialismo, da concessão da nacionalidade francesa aos judeus, da autorização dos sindicatos, do direito de associação, da liberdade de imprensa, da laicidade do Estado francês, do ideal de liberdade dos Estados Unidos ou ainda da fundação da Sociedade das Nações como ponte entre os povos. 

Respiguei algumas passagens do seu discurso que gostaria hoje de partilhar aqui com todos os meus irmãos, para que ouçais e mediteis, para que vos enchais de orgulho e continueis a dar as mãos aos valores em inabalável cadeia de união. 

"No nosso tempo, a Maçonaria é uma bússola muito valiosa, uma luz que ajuda a compreender os problemas para lhes dar respostas. A Maçonaria não se baseia num dogma fechado, mas sim numa visão aberta, é um método e não apenas uma finalidade de propósito. Hoje não diria que as batalhas são as mesmas, mas ao fim de três séculos, são os mesmos valores que precisamos promover, que precisamos organizar, que precisamos defender até atingir o âmago das nossas sociedades que, entretanto, mudaram e evoluíram. 

A Liberdade em primeiro lugar, a liberdade contra o obscurantismo, contra o fanatismo, contra o fundamentalismo, a liberdade absoluta de consciência, contra os dogmas, a liberdade de pensamento contra aqueles que procuram censurar. [...] 

A Igualdade, que no passado serviu para garantir a igualdade política entre todos os cidadãos, independentemente da sua origem ou das suas condições; nos nossos dias, deve servir para impulsionar outras formas de igualdade. [...] 

E a declaração da vontade de caminharmos juntos, de solidariedade anónima, um valor excepcional de fraternidade que implica caminhar com todos os demais. [...] Não podemos defender a liberdade se contradizemos a igualdade; não podemos defender a igualdade, se mitigamos a fraternidade". 

"Enganam-se os perversos que associam a maçonaria a forças secretas, tal um poder oculto por trás de todos os acontecimentos; é bem mais simples: muitos maçons têm desempenhado um papel importante em nome de uma ética que os predispõe à acção, uma vez que seus valores os conduzem ao progresso. 

Foi a vontade de alguns espíritos brilhantes para associar a razão científica dos sábios, ao ideal humanista dos filósofos à aspiração e transcendência dos artistas que forjou o vosso ideário e a vossa vontade. Numa França, naquele tempo ainda dominada pela monarquia absoluta e a religião do estado, as lojas foram à vez um refúgio de tolerância e uma escola de democracia". 

"Muitos maçons foram, ao mesmo tempo, criadores de grandes textos da Revolução, mas igualmente vítimas do desenrolar dos acontecimentos: das purgas do Terror, da regulação do Império, da repressão da Restauração, […]

Esta é a memória dolorosa da Maçonaria francesa, sempre perseguida pelas ditaduras, […] sempre que houve sombras escuras a pairar na história, os maçons foram perseguidos e ainda continuam a ser. […] e a história sombria de todos aqueles que quiseram questionar-vos sobre o que sois, e que sempre cultivaram as mesmas calúnias, os mesmos fantasmas em nome de uma conspiração que não perde, infelizmente, a sua validade. Basta clicar na Internet, e imediatamente ver ressurgir os conspiradores, e todos aqueles que pensam que os maçons andam neste mundo sempre a preparar não sei muito bem que tipo complô. É desconcertante, mas, infelizmente, propagado, cultivado e difundido." 

Meus irmãos: armai-vos das vossas espadas: continuam profanos à porta do tempo, vociferando calúnias contra nós, desejando apenas a nossa morte e a morte dos valores universais da maçonaria. 

E era esta a mensagem simples que neste equinócio queria partilhar convosco, através da força da palavra e dos valores, e deles imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo. 

Julio Meirinhos 
Grão-Mestre

Publicado por Rui Bandeira

26 setembro 2016

Sessão de Equinócio de Outono de 2016 e Celebração do 25ºAniversário da Grande Loja Legal de Portugal/ GLRP


Decorreu durante o fim-de-semana passado, na zona oriental de Lisboa, a Sessão de Equinócio de Outono de 2016 da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, no qual foram instalados os recentes Veneráveis Mestres aos "comandos" das Respeitáveis Lojas filiadas na Obediência, bem como a instalação do nosso Muito Respeitável Grão-Mestre, o Muito Respeitável Irmão Júlio Meirinhos.
A sessão decorreu de forma justa e perfeita durante a manhã e parte da tarde, na qual estiveram presentes acima do milhar de maçons, membros desta Obediência Maçónica Regular, bem como várias comitivas estrangeiras com origens europeias, africanas e americanas.
Durante a noite, teve lugar o já tradicional "Jantar em Honra das Senhoras" e a celebração do 25ºAniversário da fundação da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP.

Da minha parte apenas tenho a dizer que por ora, passaram os "primeiros" 25 anos da Obediência; esperamos agora a vinda do próximo quarto de século com a perseverança, labor, qualidade e progresso que a Maçonaria nacional necessita.
Se assim formos reconhecidos, profanamente posso afirmar, "que nada nos poderá parar..."
Pois só nos tornando melhores, podemos melhorar os outros e o Mundo... Dixit

28 setembro 2015

Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP à Assembleia de Grande Loja no Equinócio de Outono


Da Regularidade:

Enquanto Grão Mestre da Grande Loja Regular de Portugal, encerro nesta Grande Loja de hoje, um ciclo completo: dois solstícios: dois equinócios: um ano solar, fecho com o compasso maçónico um círculo justo e perfeito.

Antes de mais, agradecer a todos: as horas felizes, os sorrisos, a força, as ajudas, a lealdade, a harmonia, o companheirismo fiel e fraterno.

Dizer ainda que crescemos em Obreiros e em Lojas, que nos fortalecemos, que nos consolidamos, que aumentamos a nossa estruturação e eficácia, o nosso rigor, e através de uma sede de Grande Loja renovada e mais fina e ritualmente adornada, damos corpo a uma melhor imagem de nós, mais bela, espaço repositório da história e memória da nossa Obediência, mais condizente, mais justa e perfeita.

Sendo a nossa sede local onde trabalham 21 Lojas nos dois templos ali consagrados, é no entanto o espaço de todos os Mações e de todas as Lojas da GLLP/GLRP, visitável por Irmãos, Famílias e profanos em horários pré-determinados.

Mantivemos e reforçamos os nossos relacionamentos internacionais credibilizando ainda mais a nossa Grande Loja e demos corpo ao reforço estratégico dos laços da lusofonia.

E por fim conversar convosco sobre Regularidade. E falar-vos deste tema, porque somos uma grande Obediência Maçónica que se filia com total plenitude na Regularidade Maçónica, a maior família maçónica do planeta, que conta já com muitos séculos de tradição.

Por vezes somos levados a não valorizar suficientemente a real importância da nossa Regularidade, porque nos esquecemos que funcionamos tal uma orquestra sinfónica, totalmente afinada: embora o maestro seja fundamental para marcar o tempo, cada músico tem que cuidar do seu instrumento, da sua partitura, da sua melodia, manter-se a si próprio aprumado e ensaiado, estar atento e seguir escrupulosamente o tempo que a batuta do maestro dita, para se poder atingir a coesão e a coerência, para se poder realizar uma execução com unidade interpretativa, em plena harmonia.

E embora o maestro conte imenso, cada um dos restantes elementos conta igualmente imenso. Obrigado a todos por mantermos esta contínua harmonia, obrigado a cada um pelo papel fundamental que tem sido capaz de interpretar e desempenhar.

A regularidade maçónica é filiação que se conquista arduamente, é realidade que se merece depois de conseguida a harmonia, mas é também realidade que se mede ininterruptamente, e que por isso se pode perder a cada nova sinfonia que a nossa orquestra queira interpretar, porque a maléfica tentação da cacofonia espreita insistentemente, o individualismo desintegrador ameaça todos os dias, mas eu garanto-vos que serei sempre um devorador de desunião, um comedor de egocentrismos, um maestro da união e da harmonia.

Não queiramos apenas acreditar nas nuvens de algodão que descobrimos pelas janelas dos aviões, porque elas já foram beber a todas as gotas de orvalho, a todos os rios, a todos os lagos, a todos os mares, a todos os oceanos! Também assim se forma a regularidade maçónica universal, tal uma cadeia que se irmana através de elos que são cada Irmão, cada Loja, cada Grande Loja, cada confederação de Grandes Lojas, continuamente escrutinadas pela Grande Loja Unida de Inglaterra: tal uma romã, a tal meligrana que em várias ocasiões já vos falei.

Sem complexos, servilismos ou perda de soberania da nossa Obediência, a Grande Loja Unida de Inglaterra é uma autoridade indisputável no que a questões de Regularidade dizem respeito, não só porque é a Grande Loja fundadora da Maçonaria tal como a conhecemos mas porque ao longo dos anos emitiu e produziu doutrina sobre a Regularidade constituindo-se assim um referencial incontornável.

E se perdermos a regularidade o que seremos? Pura e total insignificância! Um grupo de homens livres que quer muito ser maçon, mas a quem mais ninguém no mundo lhe reconhece essa qualidade, porque deixamos de emanar luz, para ser apenas reflexo de passageiras venturas, olvidado que já foi o farol primordial que nos alicerça na nascente, que através da distância e do tempo se purificou, sem que qualquer ilusão ou miragem o venha reinventar, amortalhando assim a resplandecência da pureza inicial: e nada mais que grandes ilusões permanecerão, grandes vazios, grandes dissidências e desuniões, paraísos falsos totalmente perdidos.

Pode haver a tentação de deixarmos subir através de nós a vontade de noite, trazida por um ímpeto silêncio que acaricia a pele dos nossos egoísmos, enquanto se estende um imenso lençol de pesada sombra aniquiladora, tão serena que até dá tempo à concretização de todas as grandes destruições, que nos precipitarão em plena garganta de todos os precipícios.

Mas nós preferimos antes sonhar o rio da união como quieta lagoa que não tem que suportar o arrepio, nem tolerar saltos incertos e ousados de contrabandistas que navegam no fio da navalha dos abismos, porque a eternidade Regular, nunca acabará de passar, por isso seguiremos em justo e harmonioso silêncio, o silêncio justo da tradição e da universalidade, para não sermos esmagados pelas desilusões!

E vou continuar a falar-vos do tema da regularidade, mas agora de uma outra regularidade, a regularidade democrática em que o nosso País, o nosso querido Portugal, já se mantem há mais de quarenta anos. E falar desta regularidade democrática, porque se vão mais uma vez desenrolar eleições livres no próximo dia 4 de Outubro, o ato popular e universal que consubstancia a regularidade democrática de cada estado e que a Maçonaria tanto lutou. E não me atrevendo a opinar sobre os partidos políticos que a elas concorrem, creio constituir elemento relevante, o Grão Mestre alertar todos os maçons da sua Augusta Ordem, para que sejam cidadãos intervenientes mas inteiros, agentes plenos de cidadania, que nunca deixarão o seu país derivar para obscurantismos e outros regimes totalitários, por isso serão agentes valorizadores da democracia plena e portanto do ato popular mais sagrado das democracias modernas: as eleições livres.

Dizer ainda que durante estas últimas quatro décadas vividas em democracia, Portugal mudou radicalmente para melhor, tendo sido capaz de responder cabalmente a vários grandes desígnios e causas nacionais tal: a liberdade, a democracia, a descolonização, a infra-estruturação básica, a Europa, o desenvolvimento.

Mas ficam-nos ainda vários grandes desígnios nacionais por resolver, e dentro dos mais prementes, penso ser muito importante frisar três fundamentais: a coesão e justiça social, a coesão e justiça territorial, o respeito e defesa do ambiente.

Coesão e justiça Social para que sejamos realmente capazes de amenizar os sofrimentos dos mais desprotegidos e frágeis, não os deixando em sofrimento à beira da estrada.

Coesão e justiça territorial, de forma a esbatermos o fosso que se cavou entre o litoral mais povoado, mais rico e desenvolvido e o interior em contínuo e total abandono, caminhando a passos largos para o total despovoamento, muito mais pobre, profundamente deprimido e muito menos desenvolvido que a finíssima faixa litoral.

E por fim o respeito e defesa do ambiente, porque apenas temos este país e este planeta para viver, e temos o dever de os deixar aos nossos vindouros, pelo menos em tão bom estado de saúde, como aquele que recebemos dos nossos ascendentes.

É ainda importante frisar, que foi apenas no mês passado, que pela primeira vez um presidente em exercício nos EUA, o nosso Irmão Barack Obama, pisou o Ártico americano, para enfatizar a necessidade do combate drástico ao aquecimento global: e nós por cá não queremos nada que o nosso litoral se afunde, nem o nosso interior se erme!

E neste tempo de equinócio, a União da grande família dos maçons regulares, é de rigor: façamos o mundo mais feliz, e por contágio, sejamos todos mais felizes.

E era esta a mensagem simples que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da nossa Regularidade Maçónica, como a regularidade democrática para Portugal, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquiteto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

06 julho 2015

Maçonaria - Uma grande Família: Princípios e Deveres


Comunicação à Assembleia de Grande Loja no Solstício de Verão
e comemoração do XXIV Aniversário da Grande Loja
Lisboa 27 de Junho de 6015

Acolhemos hoje o solstício de Verão, o dia mais longo, onde a grande vitória da luz sobre a escuridão se concretiza na sua plenitude: e assim tem que ser para todos os maçons, sempre a luz dos ancestrais princípios e valores, a triunfar sobre os medos e as trevas dos obscurantismos.

Comemoramos também hoje o vigésimo quarto aniversário da nossa Grande Loja, que vive um tempo de plena asserção institucional, forte afirmação internacional, grande crescimento em obreiros e lojas, que está a materializar antigos desideratos, tal uma sede própria que se consolida e engalana.

Ainda neste dia de hoje e sempre quero que celebremos a nossa grande e fraterna família maçónica.

Como podeis constatar meus Irmãos, nas suas mais variadas dimensões, podemos bem dizer que hoje é não só um dia grande, como também um grande DIA: três comemorações em uma: não haverá detergente que se lhe iguale em luz.

Desde há muitos séculos, agrupando indivíduos com ancestrais comuns, ou unidos por laços afetivos, que a família se afirma como a unidade básica da sociedade: e é isso que a nossa Augusta Ordem tem que ser: UMA GRANDE FAMÍLIA.

Enriquece-nos, engrandece-nos, valoriza-nos a existência de vários clãs, cada um diferenciado pelo ritual que pratica, herdado dos mesmos ancestrais ascendentes, mas todos irmanados pelo mesmo apego aos princípios e valores de liberdade, de ética, de humanidade. Enquanto agregação social, a nossa Augusta Ordem, a nossa FAMÍLIA, tem que ser capaz de assumir funções de proteção e socialização dos seus membros, abrigando e acomodando a transmissão da nossa cultura inalienável de princípios e valores, o que implica ao mesmo tempo, sermos capazes de assegurar a continuidade, e proporcionar um esquema forte de referência aos membros, dando assim resposta cabal por um lado às necessidades intrínsecas de todos os Irmãos que a incorporam, e por outro às necessidades da sociedade em que nos inserimos.

Dizendo de outra forma: na família maçónica temos direitos que se materializam sobretudo na fraternidade entre os irmãos, mas muito mais que isso, o maçom tem sobretudo obrigações e deveres para traçar caminhos para um futuro mais humano, formando líderes capazes em sólidos princípios éticos e morais. 

Porque não basta pertencer à Maçonaria para se ser Maçom: é sobretudo preciso que incorporemos os Valores que a Maçonaria professa. 

Todo o maçon se une através de juramentos a esta fantástica ordem iniciática que é a Maçonaria. 

E já Thomas More sublinhava, “quando um homem faz um juramento, tem que entregar a honra como fiador, porque outra coisa não lhe é exigida para afiançar o juramento”! Se rompemos o juramento, perdemos a honra e deixamos de ser idóneos, deixamos portanto de ser maçons: e os maçons, ou são inteiros e honrados, ou então são apenas arremedos que arrefecem à sombra de vultos que se interpõem no feixe que a luz projeta.

Hoje como sempre, a maçonaria regular que não é uma realidade estática, muito pelo contrário, deve combater a tirania e lutar pela construção de uma Sociedade mais Justa e Perfeita, pela promoção da Igualdade de Oportunidades, e este desiderato apenas é possível, se os mações forem contumácios agentes que acima de tudo defendem e constroem uma sociedade melhor: para desvarios, bastam os milhões de profanos.

Cada Maçon, todos os dias, deve ser capaz de colocar mais um grão, nem que de pó seja, sobre a grande muralha da construção de sociedades mais justas.

O grande rio da liberdade, apenas se engrandece, se continuamente vir o seu caudal engrossar, por isso todos os dias temos que ser todos nós a alimenta-lo de gotas, quem mais o poderá fazer? E não tenhamos medo, porque os trasbordos e outros riscos do exercício da nossa própria liberdade, apenas nós mesmos os podemos controlar e enfrentar.

Pertencemos a esta ordem iniciática que já conta com séculos de existência, que muita catedral já construiu, e apenas por isso, somos levados a pensar que já tudo está edificado: puro engano!

Vós que como eu, amiúde viajais de avião, aprendei com as lições que vos ensina a paisagem que de cima avistais: quando atravessamos cordilheiras montanhosas, erguem-se altaneiras e duras as rochas, imponentes gritos vindos do fundo do tempo, feridas já cicatrizadas das convulsões da Terra ainda quente, que durante milhões de anos a chuva e o vento não pararam de lamber e que as nuvens de vez em quando acariciam.

E para nós apenas estas frias e duras rochas merecem respeito, enquanto o nosso mirar despreza totalmente os pequenos líquenes que lhe colonizam a pele rugosa, as ervas e as plantas rasteiras que as entornam, porque o nosso olhar ainda não soube aprender, que apenas estes se decidiram verdadeiramente a conquista-las, contando com o tempo como aliado: as rochas vão-se desfazendo, ainda que num tempo muito longo, mas as ervas e os líquenes teimosos renascem a cada ano e o seu verde não pára de conquistar terreno, pois a sua fragilidade é o melhor disfarce para enganar uma dureza fragilidade que nós queremos ver como inexpugnável: se o nosso respeito vai todo para a imponência das rochas e das altas montanhas, e às ervinhas e líquenes apenas desprezo reservamos, isso mostra como ainda tanto temos para andar no caminho da sabedoria, do amor e da liberdade.

E assalta-nos depois a paisagem monótona da imensa e interminável planície centro-europeia, mar fundo de terra fértil, verdejante, que as ervinhas, os líquenes e outras plantinhas já conquistaram às duras e imponentes rochas.

E agarra-se agora aos nossos olhos, a miragem azul-turquesa do mar Mediterrâneo, que esconde negros e profundos rifts centrais, gargantas abertas por onde sobe a lava quente primordial vinda do manto da Terra, sempre pronta a edificar novas cadeias montanhas, feitas de rocha fria erguida: e nós temos que saber, que enquanto maçons, somos as ervas e os líquenes que já as espreitam, e que iremos fazer delas imensas planícies férteis e verdejantes que darão alimento para quem ainda passa fome, e que esse gesto será verdadeira liberdade para os que ainda não conhecem o segredo que ensina a arte de bem saber mirar e durar.

Por esta parábola meus irmãos, apenas vos quis explicar a grandeza da humildade das ervas e dos líquenes, e mostrar-vos também que o céu e o inferno têm paredes meias e que começa sempre por ser impercetível a passagem de um para outro, e que a solidariedade entre os homens é sempre o ponto mais feliz da chegada. 

Tratemos todos os humanos de igual forma, sem distinção de raça, de classe, de género, de orientação sexual, todos como iguais e irmãos; combatamos a vã e vil ambição, o orgulho, o erro o preconceito, a ignorância, a mentira, o fanatismo, os integrismos, a superstição: flagelos da Humanidade, estorvos ao verdadeiro progresso; pratiquemos a justiça, promovamos a salvaguarda dos direitos humanos; pratiquemos a tolerância relativamente à escolha religiosa, à escolha de opinião política; deploremos todos estes aspetos, mas sobretudo esforcemo-nos para reconduzir o mundo aos caminhos de uma humanidade verdadeiramente humana, Solidariedade Maçónica, pura humilde fraternal,onde a felicidade se resplandece em cada um dos rostos que perfazem a humanidade.

E são estes meus Irmãos, os grandes deveres que nos esperam todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos: tudo será humildade e tudo se fará então urgência para edificar um mundo melhor.

E neste tempo solsticial, a União da grande família dos maçons, é de rigor: façamos o mundo mais feliz, mais humano e por contágio, sejamos todos mais felizes.

E era esta a mensagem forte que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, cumprindo os princípios e deveres, para consolidar a edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquiteto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

30 março 2015

Sessão de Equinócio da Primavera da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP…


Por altura do Equinócio da Primavera, e também celebrando este como o é habitual, reuniu em Assembleia Magna a Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, num local a coberto da indiscrição de profanos.

Estiveram presentes bastantes Irmãos provenientes de várias Respeitáveis Lojas e de várias localidades do nosso país, do Norte ao Sul, do Oriente ao Ocidente , como gostamos de dizer em maçonês.

Nesta digníssima Sessão Maçónica tratou-se do que havia de se tratar e falou-se do que se deveria falar, ou não fosse ela uma sessão mais administrativa...

Mais uma vez, a Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues nº5  esteve presente com uma parte do seu quadro de Oficiais de Loja bem como com elementos do seu quadro de obreiros que integram o corpo do Grão-Mestrado.

De salientar ainda o contributo que esta mesma Respeitável Loja deu em relação à Regulamentação da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, no âmbito da elaboração de uma proposta de determinado documento, demonstrando que não só se encontra à Ordem bem como ficou patente que trabalha a bem da mesma  na sua generalidade…

Finalizando,  algo que se pôde constatar das conclusões retiradas desta Assembleia Geral é de que a Maçonaria Regular portuguesa se encontra em franco crescimento e que se encontra de “boa saúde”… 
E que é assim que ela deve permanecer, acrescento eu!

02 julho 2014

Eleição de Grão-Mestre 2014/2016: Balanço


Encerrado que está o processo de eleição do Grão-Mestre da GLLP/GLRP para o período que decorre entre os equinócios de outono de 2014 e 2016, é tempo de um breve balanço.

A primeira nota a reter é que a disputa eleitoral decorreu com grande elevação. Os candidatos fizeram jus à sua condição de maçons. Expuseram as suas ideias, divulgaram-nas, defenderam-nas pela positiva e com respeito pelo opositor. Todos nos congratulamos com isso - mas não é nada demais: afinal ambos limitaram-se a ser maçons e a ter a postura que se espera de maçons.

A segunda nota que julgo asada é que o cumprimento do dever de imparcialidade por parte dos Grande Oficiais em funções não implica agir como se não houvesse eleição, não implica não falar do assunto, não implica a necessidade de ficar mudo e quedo perante uma realidade e um processo que são evidências. Aqueles que cumprem os ofícios de administração da Grande Loja e genericamente todos os Grandes Oficiais têm o dever de imparcialidade, de não usar os seus ofícios em favor ou detrimento de qualquer dos candidatos. Mas o cumprimento desse dever pode e deve ser executado assegurando-se também o esclarecimento de quem tem o direito de voto e a divulgação das candidaturas e respetivas posições.

Foi precisamente isso que se procurou fazer neste blogue. Aqui se divulgaram ambas as candidaturas, os currículos de ambos os candidatos, os respetivos manifestos, e se tomou a iniciativa de entrevistar ambos, tendo o cuidado de a ambos colocar rigorosamente as mesmas questões. Não se apelou ao voto especificamente em qualquer dos candidatos. Crê-se que ficou demonstrado que é possível proceder à divulgação de informação eleitoral com o respeito pela imparcialidade.

A terceira nota é que este processo eleitoral veio mostrar que a Maçonaria está a saber adaptar-se aos tempos atuais. Na sociedade atual, a circulação da informação é um facto. Não é mais possível deixar de ter isso em conta. Mesmo aqueles que pontuam a natureza iniciática da Maçonaria e do processo maçónico entenderam isso. Ambas as candidaturas - e bem - divulgaram as suas posições publicamente, em sítios na Internet de acesso livre. Qualquer interessado, maçom ou não maçom, pôde aceder a essa informação. Aqueles que continuam a bater na estafada tecla do secretismo da Maçonaria continuarão certamente a fazê-lo, mas cada vez com menos credibilidade...  

Finalmente, é grato verificar que, numa instituição madura, a existência de períodos eleitorais, sendo uma necessidade, é encarada e vivida com naturalidade. Eleição implica escolha, o que implica exposição de posições diferentes entre quem se submete ao juízo dos seus pares. Efetuada a escolha, termina o processo e a vida institucional e pessoal de todos os intervenientes prossegue normal e pacificamente. Assim sucedeu na GLLP/GLRP. 

Rui Bandeira 

25 junho 2014

Eleição de Grão-Mestre 2014/2016: Irmão Júlio Meirinhos Grão-Mestre eleito


Efetuada a votação e apurados os resultados, verificou-se que o escolhido pelos Mestres Maçons da GLLP/GLRP para exercer o ofício de Grão-Mestre no biénio 2014/2016 foi o irmão Júlio Meirinhos.

Na sessão do solstício de verão da Grande Loja, que terá lugar no próximo fim-de-semana, ocorrerá a formal proclamação da eleição.

O Irmão Júlio Meirinhos, iniciado em 1992 na Loja Porto do Graal, n.º 2, foi Venerável Mestre da Loja Luz do Norte, n.º 21, e fundador e Venerável Mestre da Loja Rigor, n.º 57, cujo quadro de obreiros presentemente integra.

Após ter exercido, por várias vezes, o ofício de Assistente de Grão-Mestre, é Vice Grão-Mestre presentemente em funções, ofício que assegurou, pelo menos (e cito de memória) nos mandatos dos últimos dois Grão-Mestres, os Muito Respeitáveis Irmãos Mário Martin Guia e José Moreno. Sob a direção de ambos os seus antecessores serviu leal e eficientemente. É agora chegado o tempo de assumir a direção dos destinos da Grande Loja.

A instalação do Grão-Mestre eleito decorrerá, normalmente, na sessão de Grande Loja que ocorrerá por altura do equinócio do outono.

A experiência do Irmão Júlio Meirinhos na participação da administração da Grande Loja garante que esta prosseguirá sem sobressaltos. No entanto, como é natural, dado que cada um pensa por sua cabeça e todos somos diferentes, algumas mudanças o Grão-Mestre eleito tenciona implementar, designadamente no sentido de exercer a sua liderança de uma forma mais participada e colegial, como anunciou em entrevista ao A Partir Pedra.

Com a sua eleição, termina um normal e programado processo eleitoral, que decorreu de forma participada e, sobretudo, elevada. O período da divulgação de propostas e de escolha terminou. Reinicia-se o normal processo de vivência e trabalho da Grande Loja,envolvendo fraternalmente TODOS os obreiros.

O A Partir Pedra deseja saudar o Grão-Mestre eleito e manifestar-lhe, naturalmente, que se encontra à ordem para auxiliar a executar as suas determinações. E deseja igualmente saudar o candidato que não foi escolhido, o Irmão José Manuel Pereira da Silva, pelo contributo que deu para o debate e para a reflexão sobre a Grande Loja, pela forma fraternal e elevada como deu esse contributo e pela sua pronta e inequívoca (mas de forma alguma inesperada) declaração de que, tendo sido eleito o Irmão Júlio Meirinhos, ele será, naturalmente, o seu Grão-Mestre, o Grão-Mestre de toda a Obediência e de todos os obreiros que a integram. Ambos, escolhido e não-escolhido, foram dignos opositores e foram e são maçons de comportamento exemplar, merecedores do reconhecimento de todos nós.

Rui Bandeira